LANCE OPINA : NÃO BASTA PUNIR O CORINTHIANS

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do jornal Lance

É absurdo tratar a morte do jovem torcedor boliviano como caso isolado, uma mera fatalidade. Não é. Assim como o vândalo que apontou o rojão para a torcida adversária sem medir as consequências de seu ato está muito longe de ser o único culpado dessa história.

A atitude do torcedor (ou torcedores) que provocou a morte do rapaz é indesculpável. Como tantas outras que geram violência nos estádios – felizmente sem vítimas fatais. É impossível ignorar, contudo, que outros responsáveis pela tragédia de Oruro sequer estavam ali.

Eles habitam os gabinetes refrigerados da Conmebol, das confederações da América do Sul. A politicagem dessa gente, o jogo baixo do poder, a tolerância cúmplice com todo tipo de atitude antiesportiva que alimentam esse tipo de barbárie. Para não contrariar aliados e perpetuar-se no poder, a cartolagem latina sempre se calou, fechou os olhos para o que deveria tratar com mão firme.

A Libertadores é a Copa do Vale Tudo. É a Copa da Impunidade. Das garrafas e pilhas lançadas sobre os jogadores na cobrança de escanteio aos ônibus depredados próximos aos estádios; dos tumultos em vestiários antes e depois do jogo ao confronto de torcidas, tudo é visto como “normal”. Inclusive pelos clubes, e por parte da mídia. “Isso é Libertadores!”, quantas vezes você não ouviu essa expressão em tom ufanista?

Isso não pode ser mais a Libertadores, que ninguém se iluda.

O futebol sul-americano tem de mudar. Passar por limpeza, sacudir o mofo entranhado em suas estruturas. Apesar de todas as mazelas de governos populistas, poucas regiões do mundo têm crescido tanto quanto a América Latina. E o esporte tem de acompanhar esse processo.

Este LANCE! já demonstrou, em série de matérias, o abismo que separa, na organização e nas cifras, a Libertadores da Liga dos Campeões. Abismo que só pode ser reduzido com moralização, decisões transparentes e profissionais, indispensáveis para atrair a confiança de público, investidores e patrocinadores.

Na Europa, como mostrou o LANCE!Net nesta quinta-feira, os dois times seriam punidos. O clube da casa, por não organizar a segurança, perderia mandos entre outras penas. O visitante poderia ser excluído da competição por vários anos.

Mas, para chegar-se a tanto, criou-se condições de segurança, investiu-se em equipamentos e práticas capazes de assegurar a paz nos estádios, criou-se um conjunto sólido e transparente de normas e exigências a serem cumpridas.

A dura punição imposta ao Corinthians, com a proibição de público em seus jogos por 60 dias, pode representar uma mudança de postura do lado de cá. É uma pena forte, mas racional. Falar em banir o campeão do mundo dessa Libertadores, pelo ato estúpido de um ou mais vândalos, era ação casuístico, movido pelo calor da tragédia e não por bom senso ou princípios morais e jurídicos que norteiam o futebol daqui.

Mas punir não basta. O que a Conmebol precisa – e não é com Nicolas Leóz e seu bando que vai conseguir – é criar e fazer cumprir uma legislação rigorosa e sustentada, um código de conduta ética e disciplinar que efetivamente mude a cara dos campeonatos que organiza. À Fifa cabe intervir para assegurar isso. Uma decisão séria, algo que funcione de verdade, às claras, e não seja, como esse Tribunal recentemente criado parece, apenas uma instância para acomodar interesses e continuar a jogar sujeira para baixo do tapete.

Nota do blog: Reproduzi a opinião do Lance no blog porque concordei com tudo o que foi escrito. Seria inútil dar mais uma avaliação sobre o assunto.  O tema sobre a violência de um grupelho de torcedores organizados já foi escrito aqui. Curiosamente a postagem foi uma das lidas recentemente depois dos tristes fatos ocorridos em Oruro. Ela foi escrita há dois anos. Prova de que desde lá , os governos, as  autoridades futebolísticas e os clubes de futebol  continuam a tratar a violência nos estádios como um mero assunto secundário.

2 Respostas to “LANCE OPINA : NÃO BASTA PUNIR O CORINTHIANS”

  1. Antonio Carlos de Carvalho Says:

    A parte principal para mim é esta: “Mas, para chegar-se a tanto, criou-se condições de segurança, investiu-se em equipamentos e práticas capazes de assegurar a paz nos estádios, criou-se um conjunto sólido e transparente de normas e exigências a serem cumpridas”.
    A punição do Corinthians é inócua. Ele continuará a não poder fazer nada pra coibir a violência e a entrada de artefatos que podem causar lesões e morte nos estádios em que for visitante. A Conmebol deixou claro que o problema no jogo foi o sinalizador que acertou o garoto boliviano e o matou. Os outros todos, inclusive e em maior número da torcida boliviana, não representaram problema e nem perigo algum. Afinal de contas, não acertaram ninguém, não é mesmo?
    O mais importante de tudo é identificar, prender, julgar e condenar o culpado. Sem isso, de nada adiantarão punições pontuais. Na Inglaterra a decisão foi polpitica, pois não levou em conta apenas os envolvidos no jogo fatídico: todos os clubes ingleses de qualquer divisão foram punidos, por 5 anos. As pessoas raivosas que exigiram a punição do Corinthians dveriam ter pensado mais longe e não esperar que aconteça o mesmo com outro clube (pois nada mudou). Deveriam propor a proibição de todos os clubes brasileiros de disputar a Libertadores, e um bom motivo para isso é que a punição imposta ao Corinthians não leva em conta se ele teve ou não alguma participação na morte do garoto, simplesmente leva em conta que o torcedor era do Corinthians e mais nada. Não vou nem dizer que a polícia e a organização bolivianas falharam, pois mesmo que os torcedores tenham burlado a suposta revista (que na verdade não houve), eles não poderiam utilizar os sinalizadores no estádio (ou poderiam, segundo a legislação boliviana?). Ao verificar que ambas as torcidas estavam usando os sinalizadores, a polícia deveria ter apreendido os artefatos. E, se realmente é proibida a entrada destes artefatos no estádio, além de apreendê-los, prender os portadores. Eu não sei o que e quais providências qualquer visitante deverá ou poderá fazer ou tomar, doravante, para evitar mais ferimentos graves ou mortes nos estádios. Parece quem ninguém está se importando com isso, afinal de contas, o Corinthians foi punido, não é??
    Ah e para aqueles que ainda acham que foi fatalidade… não houve fatalidade alguma, pois o homocídio só ocorreu por que algum(uns) torcedor(es) tiveram a idéia de levar os artefatos ao estádio e usá-los, se não o tivessem feito, nada teria acontecido, então a causa da morte do garoto foi essa atitude consciente de quem utilizou o sinalizador. Entendam bem, fatalidade teria sido, por exemplo, se um raio atingisse uma parte do estádio, derrubando algo sobre um torcedor e esse viesse a se ferir ou morrer em decorrência disso.

  2. Marcelo Abdul Says:

    O buraco é bem mais embaixo. A Conmebol nunca tomou uma posição forte contra algum incidente que tenha acontecido em seus gramados. Desde 1960 ela se comporta como se a Libertadores fosse uma Copa Kaiser. Prova disso é que até o ano passado o cartão amarelo não suspendia. Já tivemos outros incidentes nos campos americanos e nada foi feito. Lembro do jogo Lanus x Atlético Mineiro na final da Copa Conmebol de 1997 em que as agressões covardes dos argentinos não resularam em nada. O São Caetano por pouco não foi linchado pela torcida do América do México em 2004.A confusão da sul americana no ano passado também foi um sintoma do desleixo dos organizadores. Integrantes da torcida Jovem do Santos foram presos no Paraguai depois de agredirem torcedores do Cerro Portenho em Assunção e o Santos não foi punido. O caso da morte do garoto é uma sucessão de desleixos da Conmebol cometidos pelo “caudilho” Nicolaz Leoz. Quanto ao Corinthians acho que em parte o clube é tem parte na responsabilidade sim pois a exemplo de outros times eles financiam indiretamente alguns marginais organizados a barbarizarem os estádios e nada faz para mudar isso. Isso é um fenômeno de toda a América do Sul. desde as organizadas daqui até os Barras Bravas da Argentina igualmente violentos. Isso precisa acabar.

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