O ÚLTIMO RESQUÍCIO DA DITADURA

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Depois de vinte anos de um regime autoritário e sangrento, o regime militar se findou no ano de 1985 com a eleição indireta do civil Tancredo Neves para a presidência da república. Muitas instituições viciadas pelos anos de chumbo e pelos carimbos de censores demoraram anos para se recuperar como o cinema, teatro e outras manifestações culturais. Hoje, elas deram a volta por cima e respiram os ares da livre expressão.

No entanto, uma instituição resiste aos ventos do tempo e mantém resquícios muitos fortes de características despóticas adquiridos durante o regime de 1964. Essa instituição infelizmente é o esporte mais amado pelos brasileiros: o futebol.

A maior paixão nacional hoje mantém atos imperiosos, paternalistas e ditatoriais. Em quase 35 anos da abertura democrática brasileira os atletas se mantem mais alienados que nunca. O sindicato de jogadores tem uma participação quase que irrisória nas grandes questões que envolvem o esporte bretão.

Futebolistas de grande prestígio são obrigados a fazer verdadeira maratonas entre a seleção brasileira e seus clubes, com direito a jatinho para chegar rapidamente aos jogos e se desgastar desnecessariamente por causa de amistosos contra as seleções do Azerbaidjão ou de Madagascar.

No entanto, os jogadores, principais interessados nessa questão não se manifestam. Eles tem medo de serem punidos e discriminados pelos seus clubes. A escala sobe. Os times morrem de medo dos presidentes de federações estaduais até chegar no topo da pirâmide representado pela CBF.

CBF liderada hoje por José Maria Marin, um ex-político ligado a extinta Arena, partido que sustentou a democracia de araque da ditadura militar por anos. Em outras federações estaduais não será difícil encontrar figuras ligadas a uma permanência quase infinita no poder.

O regime do futebol brasileiro é ditatorial como no governo iniciado pelo general Castelo Branco. Os jogadores não tem direito ao voto. Estatutos e leis são descumpridos nas eleições e dão mais poder às esclerosadas federações estaduais que os clubes. A democracia passa longe da sede da Confederação Brasileira. Velhos e caducos vícios se mantém num círculo pedante e interminável.

Para piorar existe ainda o STJD. Um tribunal que julga as mais insanas punições e que agora quer restringir o direito constitucional da livre manifestação e do pensamento. No último domingo a irônica torcida do Atlético Mineiro fez um mosaico com as cores do Fluminense escrito CBF de cabeça para baixo.

A manifestação original e bem humorada foi um protesto pelas seguidas falhas de arbitragem que ajudaram o time carioca a se manter na liderança da competição. No entanto o procurador do STJD Paulo Schmitt, não enxergou com bons olhos o recado da torcida do Galo. Denunciou o ocorrido e quer a interdição do estádio Independência.

Um ato indecoroso, totalmente descabível num país dito democrático. Nenhum esporte está acima das leis e da Constituição apesar de muitos desembargadores pensarem ao contrário.

O STJD de longe não é o melhor exemplo de justiça em nosso país. Pelo contrário. Já vimos decisões absurdas como tirar pontos de um time quando o regulamento não permitia. Outro caso surreal foi a volta repentina das férias de seus desembargadores apenas para colocar Edmundo na final do brasileiro de 1997 e outras barbaridades que num país conscientizado paralisaria o campeonato até o tribunal ser extinto.

Mas estamos no Brasil, o país da cultura patronal, do “sim senhor”. Do “ É dando é que se recebe”.

Com urgência é necessário democratizar as federações esportivas. Obrigá-las a ter eleições constantes e contar principalmente com o voto dos atletas, principais interessados nas mudanças que o esporte pode lhes proporcionar. Acabar com o STJD e adotar um tribunal de penas é outra solução viável para que o futebol respire ares verdadeiros de um país livre e sem repressão.

O nosso amado esporte, por causa dos velhos cartolas é um dos últimos símbolos da ditadura. Um baluarte maligno em que jogadores e treinadores não podem ter opinião, nem ao menos comemorar um gol efusivamente com emoção à flor da pele com o risco de tomar um cartão amarelo de um árbitro robotizado e imbecil. Um tapa na cara de um país que se livrou de repressores com farda cinco estrelas e que agora se vê vítima de decisões retrógradas de um soprador de apito que veste amarelo.

A chefia de José Maria Marin ao comando da CBF é  um dos maiores símbolos de que o futebol ainda  não acompanhou a evolução política brasileira. Pelo contrário, ele regrediu e voltou a um tenebroso passado. Um período que nós não queremos que retorne nunca mais.

5 Respostas to “O ÚLTIMO RESQUÍCIO DA DITADURA”

  1. guina rodrigues Says:

    X____________________________
    Brilhante post! roubado!

  2. Marcelo Abdul Says:

    Valeu Guina.

  3. zarpante Says:

    Belo artigo! Conheçem o projeto Morte Súbita!?
    http://www.zarpante.com/investment/morte-s-1173

  4. Marcelo Abdul Says:

    Valeu obrigado. Vou ler e conhecer o projeto. Agradecido pelo link

  5. zarpante Says:

    Nós que agradecemos!

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