AQUELA INESQUECÍVEL NOITE DE QUARTA

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Rái levanta a Taça Libertadores: título para a história são paulina

 

 

Amanhã se comemora os vinte anos da primeira conquista do São Paulo na Taça Libertadores. Um título que hoje é disputado e venerado por muitas torcidas do futebol brasileiro do Rio Grande do Sul até o Pará.  Talvez muitas pessoas não saibam mas o principal torneio da América do Sul não tinha essa “fama”  de hoje. Pelo contrário, muitas equipes nacionais até abandonavam a competição porque achavam os campeonatos estaduais mais importantes. Acreditem, é verdade.

O futebol brasileiro vivia um momento complicado. Com as seguidas derrotas em Copas do Mundo que havia culminado na vexatória campanha canarinho no Mundial de 1990, o esporte ficou abalado em prestígio. Com a grande fase de Ayrton Senna pelas pistas do mundo, a Fórmula 1 ocupava mais espaço em jornais do que o esporte preferido dos brasileiros.

O Brasil era um país  muito e conhecido e admirado pelas conquistas de suas seleção mas em matéria de clubes,  a situação não era a mesma. O último título de Libertadores de um clube nacional havia sido conquistado há quase uma década com o Grêmio em 1983. As seguidas campanhas dos times brasileiros eram vexatórias. Muitos caiam ainda na primeira fase da competição contra equipes chilenas, argentinas e colombianas. Até o São Paulo campeão brasileiro com um timaço formado por Dario Pereira, Muller, Silas, Pita e Careca  fizeram feio na Libertadores de 1987  perdendo para o Guarani de um certo Henágio,  e os chilenos  Cobreloa e  Colo Colo.

Em 1992, essa maldita escrita parecia se manter. O técnico são paulino Telê Santana havia colocado reservas para jogar na estréia da competição em Criciúma e tomou um baile de Jairo Lenzi, 3 x 0 para os catarinenses. Telê odiava a competição que era marcada pela violência, intolerância de torcedores e dopping descarado.

Palhinha é caçado em campo: jogo difícil

Depois de muitas críticas da imprensa e da diretoria contra a postura de Telê, a situação mudou e o tricolor paulista começou a dar importância ao torneio.  Na Bolívia o tricolor fez grandes partidas graças em parte ao programa de condicionamento físico do departamento médico do São Paulo que simulou e treinou os atletas para os efeitos devastadores da altitude boliviana.  O resultado foi ótimo pois o clube brasileiro saiu do país andino com uma vitória de 3 x0 sobre o San Jose e um empate  de 1 x 1 contra o Bolívar.  Mas apesar de toda a preocupação da cúpula são paulina em vencer o torneio, a torcida ainda não acompanhava o ritmo da competição.

Para se ter uma ideia os jogos contra Bolivar, San Jose e Cricíuma eram realizados num Morumbi vazio. Muitas vezes a diretoria deixava o pessoal da arquibancada ir para a cativa num dia de chuva para “pressionar” mais o adversário. Parece incrível, mas a Libertadores para os são paulinos não era essa “adoração” toda. Mesmo assim. o tricolor seguia firme e devolveu a goleada contra os catarinenses por 4 x 0, venceu o Bolívar por 2 x 0 e de salto alto empatou com o fraco San Jose no seu estádio.

Testemunha Ocular

Me recordo até hoje. Nos jogos contra o Nacional e Criciúma pelas oitavas e quartas-de-final da competição e eu e meu primo estacionamos o carro bem em frente num Morumbi semi-deserto. Nem parecia que haveria um jogo  de Libertadores por lá. Ficamos na cativa e o Macedo fez um gol salvador e o tricolor depois empatou o segundo jogo em Criciúma em 1 x 1. O  mais querido estava na semi.

Mesmo com o São Paulo na semifinal, o Morumbi não encheu totalmente. Acho engraçado porque hoje os torcedores se matam na fila se isso acontece. Naquela época você poderia perfeitamente ir no guichê e comprar o ingresso na hora. O futebol brasileiro estava tão prestigiado pelo fracasso da Copa de 1990 que a Globo não transmitia os jogos.  Somente a extinta rede OM, a também liquidada  TV Jovem Pan de televisão além da rede Cultura. Acreditem, Milton Neves narrava os jogos e  bem..rs

Depois de dar um show no Morumbi (3 x 0) e sofrer em Guaiaquil (0 x 2), o São Paulo foi para a final de Libertadores. Foi aí tudo começou a mudar.  Não é a toa que tivemos por muito tempo a fama de sermos uma “torcida de final” . Não cabe discutir isso agora. O fato é que a decisão contra o Newell´s Old Boys da Argentina despertou os são paulinos de toda a cidade. Milhares foram à Federação Paulista de Futebol  garantir o seu lugar na final. Impressionante como brotou são paulino de todo lugar…rs.

Eu que não sou bobo nem nada, fui lá com meus amigos tricolores para participarmos desse momento histórico. A fila na Avenida Brigadeiro era quilométrica, mas andava. Naquela época não havia divisões na arquibancada. Ela era uma só e você poderia sentar onde quiser lá em cima. O ingresso era de papel. Não tinha que mostrar carteirinha da UNE e imprimir ingressos.  Era bem mais eficiente e lépido do que hoje, tenham certeza.

Em meia hora conseguimos os ingressos e  esperamos  o dia do jogo.  No dia da final meu primo pegou uma bandeira tricolor surrada da conquista do Paulista de 1975 e colocou na traseira do carro dele. E fomos nós mais dois amigos para a partida mais importante das nossas vidas.

Ingressos da semi e final da Libertadores: emoção dentro do estádio

Não quero me gabar mas sabia da importância de se ganhar uma Taça Libertadores antes da competição começar. Mas os histórico dos times brasileiros contra os argentinos deixava a desejar nesse torneio ( até hoje é assim) e temíamos que o tricolor travasse na hora H e perdesse o título. O Newell´s Old Boys de Rosário era o bicho papão da Argentina na época. Eram comandados pelo “El Loco” Marcelo Bielsa e já tinham ido para uma final da competição sul americana  em 1988. O primeiro  jogo em Rosário havia sido duro e depois de um pênalti meio mandrake os argentinos ganharam.

Quando entramos no Morumbi, que senhora diferença dos jogos anteriores!!! O estádio estava abarrotado com as pessoas disputando lugar centímetro por centímetro. Mal conseguíamos sentar direito, mas arranjamos um lugarzinho atrás do gol que dá pra praça Roberto Gomes Pedrosa, mal sabíamos que ali seria a visão ideal de um jogo inesquecível.

Nos sentamos e esperamos. O clima no Morumbi era tenso. Um dos meus amigos brigou com outro torcedor por causa de espaço. Acalmamos todo mundo e esperamos a partida começar.  Todos os são paulinos sabiam que a Libertadores da América era um título muito difícil de conquistar.  Não havia espaço pra oba oba ou “já ganhou”. Apesar do time de Telê ser muito técnico sabíamos que o histórico contra os times argentinos era desfavorável. Isso se refletiu no desempenho da torcida são paulina na questão da vibração. Mais se 100.000 são paulinos apertados no estádio roendo as unhas  numa partida disputada e tensa.

Quando o jogo começou os ‘hermanos” quase fizeram o gol. A trave e os deuses da bola estavam do nosso lado e por enquanto  do lado deles também  pois o tricolor balançou o poste argentino.  O São Paulo não foi técnico como nas partidas anteriores. Foi raçudo, racional, químico. Atacava a defesa do Newell´s   esperando uma brecha do adversário e o primeiro tempo terminou 0 x 0. O Morumbi continuava nervoso. E lá estava eu segurando aquela bandeira tricolor de 1975 que me confortava. Sinto o cheiro e o tato dela até hoje.

No segundo tempo o São Paulo foi mais agressivo.  A equipe brasileira  tentava furar a retaguarda argentina mas o atacante Müller estava muito mal.  Além de errar passes e gols,  o atacante estava muito marcado. A torcida começou a se impacientar e começou a gritar “Macedo, Macedo”.  Santo Telê.  Quase imediatamente ele  atendeu a torcida e depois de Müller levar uma das maiores vaias da história do Morumbi,  o seu substituto começou a entortar a defesa portenha.  Em um dos lances foi agarrado dentro da área. Antes dele cair  vimos da arquibancada  a camisa dele sendo puxada. Quando ele foi ao chão nós já estávamos pulando antes do  juiz apitar a infração. O Morumbi, que estava  silencioso, explodiu de alegria.

Raí acerta a cobrança e faz 1x 0: estava aberto o caminho para o título

Estávamos bem atrás do gol onde hoje existe a arquibancada amarela e notamos o rosto frio e impávido do capitão são paulino.  Raí quando foi cobrar não demonstrava nenhum nervosismo. Pelo contrário, parecia um tigre antes de atacar uma presa. Ele bateu com força, precisão e raiva. Gol! O tricolor igualava o resultado agregado. O estádio todo começou a comemorar.  A possibilidade de um time da cidade de São Paulo conquistar uma Libertadores pela primeira vez era algo real. E nós, os adeptos do “time grande mais novo” e a “terceira” maior torcida da cidade até aquele momento iriamos realizar esse feito.

Mas com o tempo os ânimos foram esfriando. A tensão começou a tomar conta da partida  novamente.  Nós sabíamos que um gol deles seria fatal e nos calamos. Telê levantou do banco e começou a agitar a torcida. Nós respondemos e o tricolor começou a pressionar. Mas o jogo acabou e a partida entrou na roleta cruel dos pênaltis.

Zetti defende o chute de Gamboa: a maior defesa da história do Morumbi

Meu Deus! A aquela altura do campeonato eu já estava moído. Pênalti não! O Brasil já estava traumatizado com aquilo desde a Copa de 1986 e em outros torneios. E além de tudo, o goleiro Zetti estava sob desconfiança da torcida  depois de falhar em alguns jogos no campeonato brasileiro.  Me cobri na bandeira e não prestei atenção em mais nada. Quando Berizzo bateu a bola no sagrado metal eu comecei a pular feito louco. PUTA QUE O PARIU!!! NA TRAVEEE!  Amigos me contaram que eu bati o recorde de João do Pulo. Depois foi a vez do “terror do Morumbi” Raí… caixa!!!

Zamora empatava mas Ivan, um zagueiro improvisado na lateral,  antes contestado pela torcida colocou o tricolor novamente em vantagem. Llop empatava para os argentinos, mas a vantagem ainda era nossa. Mas quem disse que Libertadores é fácil? Ronaldão, com uma alta carga de displicência bateu no meio do gol e o cabeludo Scoponi mal havia se mexido para defender a bola. Uma bobeira.

Na minha conta acho  que falei 367 palavrões em menos de um minuto criticando a cobrança do zagueiro são paulino. Ele deu uma hesitada e errou. Mas bola pra frente.  Chegara a vez de um tal de Mendoza e o argentino mandava a bola quase em direção da Praça Roberto Gomes Pedrosa. Mais uma vez o estádio abarrotado gritava de alegria. Cafu fazia a parte dele e mandou a bola no fundo das redes portenhas. Pega lá “hermano”.

jogadores são paulinos se abraçam: é campeão

Então veio o derradeiro pênalti. Gamboa, até então um dos melhores laterais do torneio se concentrou. Zetti, de mãos para o céu parece que recebia uma mensagem divina dos deuses do futebol (mais tarde se soube que o recado celestial veio do consagrado preparador de goleiro Valdir de Moraes). O argentino bateu forte no canto esquerdo, mas o goleiro são paulino voou como um gato e realizou a maior defesa da história do Morumbi.  O São Paulo era campeão da Taça Libertadores da América pela primeira vez e  um Morumbi emocionado assistiu a maior festa que a cidade de São Paulo já vira em muitos anos.

a torcida tricolor invade o gramado: um mar vermelho, preto e branco

Sinceramente? Não há palavras para descrever uma emoção dessas. Somente quem já a viveu por um momento. Ganhar uma Libertadores é uma emoção inexplicável, uma sensação transcendental que ultrapassa qualquer limite da racionalidade.  Depois da defesa de Zetti pulei gritei e me emocionei com meus amigos Camilo, Sérgio e Farias. Não há emoção maior. Choros, gritos de ” é campeão” e uma invasão de campo que o esporte nacional jamais vira em sua história.  O futebol brasileiro havia conquistado um título internacional de clubes depois de anos de sofrimento. A comemoração se estendeu até o dia seguinte e me lembro de ter tomado o maior porre da minha vida comemorando o título na Avenida Paulista, no tempo em que as pessoas sabiam festejar um título de Libertadores sem quebrar nada.

Acordei de ressaca em pleno feriado de Corpus Christi, com uma sensação maravilhosa de um sonho que se realizara. Era como ter transado com a Ellen Rocche a Taís Araújo juntas. Caminhei orgulhoso pelas ruas de meu bairro com um baita sorriso estampado no rosto. Dizem que futebol não é importante. Bobagem. Em certos casos são esses momentos que você guarda para a vida toda e aqui estamos nós depois de vinte anos lembrando desse período espetacular.

O chamado “caçula” do trio de ferro era o primeiro time paulistano a vencer a Taça Libertadores da América. “De São Paulo tens o nome, que ostentas dignamente”. Nunca um hino foi tão certeiro e profético. A conquista são paulina abriu caminho para a recuperação do futebol brasileiro que culminou no tetracampeonato nos Estados Unidos em 1994 e várias outras vitórias anos depois. Se antes estávamos atrás até do Uruguai em número de conquistas de títulos de clubes, hoje disputamos taça a taça a Libertadores e outras competições sul americanas  contra os ainda hegemônicos  argentinos.

Aquela noite de quarta-feira será inesquecível para mim e muitos outros tricolores que agradecem hoje eternamente aos heróis daquela conquista.

Obrigado Zetti, Alexandre,  Cafu, Antônio Carlos, Ronaldão, Ivan, Adílson, Pintado, Raí, Muller, Macedo, Palhinha e Elivélton.

Obrigado mestre Telê Santana.

E principalmente muito obrigado Deus por eu ter nascido são paulino.

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